Projeto Decanos | 1995 – 2005 – 2015
fotos Armando Prado
texto Fernando Costa Netto

O início do projeto Decanos foi concebido em 1995. Há 20 anos, reunimos para as páginas da extinta revista Boom uma reportagem com 20 personagens que ascendiam profissionalmente e agregavam charme e conteúdo à cena paulistana. Esta homenagem seria replicada 10 anos depois em outra publicação, a revista 2005. Àquela época, neste segundo ato, as fotos de Armando Prado já deixavam o plano efêmero e editorial para se tornarem um projeto em construção que ia além de um olhar sobre a casta cultural de São Paulo. Em 2015, 20 anos após a primeira sessão de fotos, a exposição Decanos entra no terceiro round e ganha um corpo muito interessante, que escancara a passagem do tempo sobre nós. Três épocas colocadas lado a lado conversam visual e nostalgicamente sobre o passado e o presente, sobre a juventude que ficou para trás, sobre o jeito de se vestir, sobre o penteado, as tatuagens, o impacto de duas décadas sobre nós. Dos 20 convidados em 1995, quatro desapareceram nos 10 anos que antecederam a segunda sessão de fotos. Não foram encontrados, não puderam ser localizados ou abandonaram o projeto. Outro, o fotógrafo David Zingg, faleceu em 2000 e, mais recentemente, em 2013, o músico Alberto Marsicano também nos pegou de surpresa e agora encanta o cosmo com sua cítara indiana.

O projeto Decanos entra em 2015 sob a forma de um trabalho cronológico e nunca antes realizado pela fotografia brasileira. É um encontro por década que materializa um estudo sócioantropológico ou estético-filosófico sobre quem éramos. Uma bela lembrança das nossas vidas, um trabalho para a posteridade, que, a cada ato, ganha mais força e novos significados.

Em 2025, esperamos reunir todos novamente para a quarta temporada. Cuidem bem da saúde para que isso possa acontecer! Nesses 20 anos, prosperamos.


David Drew Zingg, fotógrafo. [1923 – 2000]
[1995] Era articulista da Folha de S.Paulo e fotógrafo. Americano, escolheu o Brasil para viver. Gostava de um bom scotch e do hambúrguer do McDonald’s. Em 27 de outubro de 2000, David morreu de câncer, aos 76 anos.
[2005] As cinzas de David ficaram por anos numa prateleira de madeira nobre na casa de um grande amigo, o colecionador de artes Kim Esteve, em São Paulo. Kim aguardava a chegada do amigo em comum, o fotógrafo da revista Vanity Fair Jonathan Becker, para o ritual de passagem definitiva. Numa tarde de muita chuva e na companhia de amigos, as cinzas de David Zingg foram repousadas definitivamente no gramado bem cuidado da casa de Kim, onde estão também obras de Wesley Duke Lee e os restos do artista Neil Willians, americano, morto em 1988. Um outro parceiro, Leo Laniado, trouxe uma muda de Cássia-imperial, árvore que floresce no verão, e junto com uma taça de champanhe David foi cuidadosamente colocado no jardim. David Drew Zingg floresce todos os anos e pinta de amarelo o espaço.

JacLeiner_40cm
Jac Leirner, 53, artista plástica.
[1995] Sua droga favorita era pensar. Adorava o trabalho, os doces e o cigarro.
[2005] “Adoro estar com meu filho, Marcelo, e crescer com ele. Continuo amando doces e cigarros, mas com muita resistência. Eu quero largar os dois. Pensar continua sendo minha droga predileta, mas o amor transcende mais do que o pensar. Amadureci, virei mãe, percebo o mundo com menos encantamento e vejo que o buraco é mais embaixo.”
[2015] “Daqui a 10 anos espero estar em movimento e em transformação, tentando tornar meu entorno mais leve e fresquinho.” Jac é amor à primeira vista, um exocet das artes. Representa o país nas principais coleções de arte contemporânea no Brasil e no mundo e em grandes museus como MoMA e Guggenheim.

Atala_40cm
Alex Atala, 46, chef, Cristiana Monaco, 47, diretora de arte, e Pedro, estudante.
[1995] Alex Atala ainda era o Alê, havia retornado da Europa e dava os primeiros passos na cozinha do restaurante que ele havia acabado de inaugurar, o Sushi & Pasta, em sociedade com a ex-mulher Cristiana Monaco, ótima cozinheira. Pedro tinha nascido semanas antes. O sonho do Alê era comprar um barco, morar perto do mar e dar uma vida saudável para Pedro.
[2005] Pedro surpreende a mãe ao se tornar um garoto superligado em música. Aos 10 anos tocava guitarra e já tinha até uma banda. Alê virou Alex. Casou-se novamente e teve mais dois filhos, os gêmeos Tomás e Joana, de dois anos. É um dos chefes de cozinha mais importantes do país. Abriu o restaurante D.O.M., em São Paulo, e apresenta o programa “Mesa para Dois”, no canal GNT. “Não imaginava esse sucesso profissional. Trabalhei muito, mas há 10 anos nem passava pela minha cabeça onde iria chegar.” “Sonho com um barco e em morar na praia. Já não sei quando isso vai acontecer, mas é bom ter sempre isso em mente.” Para Cris, o que mudou foi a percepção do tempo. “Hoje eu não penso mais no que será daqui a 10 anos, e sim, no próximo minuto. O que eu quero é viver bem para chegar daqui a 10, 20, 30 anos de bem com o meu tempo.”
[2015] Quero chegar lá com sabedoria para compartilhar e mais tempo livre para criar. [Cris]
Alex estava sem comunicação, em viiagem pelo interior da Amazonia pescando, pesquisando raízes, frutos e temperos. [NR]

Alaor_40cm
Alaor Vieira, 59, engenheiro elétrico, produtor técnico de áudio e luz e barman.
[1995] Era uma das 15 pessoas no mundo que tinham o rosto tatuado.
[2005] Afirmava que não estava preocupado com a quantidade de tatuagens, que esse era um pensamento ocidental e que não poderia fazer a foto em 2015 porque iria desencarnar em breve.
[2015] Alaor, esse cara tão especial, segue no projeto e faz parte do terceiro ato. “Mergulhei na Ufologia e fiz vários contatos. Passaria muito tempo para explicar a relatividade do meu tempo com a vida. Mas o tempo que me foi estabelecido ficar por aqui não seriam 5 anos terrestres. Até eu fico confuso com o tempo de desencarne ou de teletransportagem.” Diz que nada lhe foi dito, mas que as novas coordenadas mostram que há muita coisa ainda a ser realizada, muitas pesquisas, estudos e obtenção de novas tecnologias. “Tenho muitos trabalhos nessa área. Me refiro ao campo mais encantado, independentemente da obra terrena e da sobrevivência.”

Skowa_40cm
Skowa, 60, músico.
[1995] Era o homem de frente da banda Skowa e a Máfia. Tocava de tudo, “era um especialista em generalidades.” Skowa colecionava Kinder Ovo e gibis.
[2005] Fazia parte do Trio Mocotó, grupo que tinha mais de 30 anos de estrada e foi um dos pais do samba rock, ao lado de Jorge Benjor. “Sou um cara mais tranquilo. Hoje quero paz. Em 10 anos, se estiver todo mundo aqui, quero estar tocando com eles. Vou estar com 60; a turma vai estar com 80. Sei lá, talvez eu entre no Demônios da Garoa.”
[2015] “Me candidato aos Rolling Stones ou ao Abba. E estou contente por agora estar realmente sexy. Sexy e agenário. Um envelhescente irresponsável no caminho do útero cósmico, mamando no peito e à espera da fralda geriátrica… Me aguarde, Benjamin Button!”

Dora_40cm
Dora Longo Bahia, 52, artista plástica, professora.
[1995] Estava numa fase de pintar inspirada em fotos de mulheres mortas, lutava jiu-jítsu e era baixista da banda Disk Putas.
[2005] Entrou numas de coqueiros, mais praia. “Pintei uns coqueiros em cima de umas páginas de jornal que tratavam de violência.” Seguiu lutando e pegou a preta de tae-kwon-do. Abandonou o jiu. “Os caras eram muito fedidos com aquele quimono nojento.” Trocou o Disk Putas pela banda Vera Fischer e entregou que a fantasia era ficar famosa, ter sucesso e dinheiro.
[2015] Em 10 anos? “Não tenho expectativa para 2025.”

JPedrosa_40cm_bx
João Pedrosa, 56, colecionador.
[1995] Frequentava os clubes Massivo, ChaChaCha e Columbia e vestia antes o que ia ser o máximo no ano seguinte.
[2005] Saía pouco à noite, ao D-Edge, Pix ou Level. “Tudo mudou. Não bebo mais, acredita?” No domingo ia às feiras de antiguidade do Masp e do Bixiga. Ficou casado por 8 anos. “Mas, como todo casamento, terminou.”
“Daqui a 10 anos meu objetivo é ser feliz sozinho, que é a condição fundamental para se casar.”
[2015] Atualmente dedica-se ao colecionismo. E prefere não falar sobre o futuro.

tibirica_40cm
Tibiriça, 50, empresário da noite
[1995] Colecionava brinquedos antigos, andava de bicicleta e sonhava em ter um Cadillac azul.
[2005] Era dono da loja de antiguidades Sixties e do Club Vegas. “Mudou tudo. Tenho um filho de 9 anos, já casei, separei…Não sou mais da noite, não faço um monte de coisas que fazia.” “Daqui a 10 anos quero estar fazendo o mesmo comércio que faço hoje e ter uma loja perto da praia.”
[2015] É sócio do Z Carniceria e do Armazém Alvares Tibiriçá. Estou quase lá. Em mais 10 anos vou estar em Portugal, na praia, vendendo antiguidades e colecionando carros, vivendo na manhã do gato, digamos.

Castilho_40cm
Théo Castilho, 52, artista plástico.
[1995] “Viajava pelo mundo, conheci 22 países e aprendi a falar 6 idiomas. Meu lugar favorito era o Vondelpark, em Amsterdã.” Theo foi um dos primeiros organizadores de festas rave no Brasil.
[2005] “Nada piorou, ficar mais velho só acrescentou. Só que depois dos 40 você começa a sentir tudo o que fez na vida.” Hoje, quase não vai às raves. “Tem muita gente, muita criança. Aquilo virou modismo e existe a babaquice da droga. Não era esse o espírito da rave. A ideia era encontrar uma maneira mais lúdica e menos materialista de se viver.”
[2015] “Gostaria que o Brasil estivesse bem economicamente e que desse pra sair tranquilo na rua.”
[2025] “Quero estar calmo, tranquilo, já que a calma é o atalho para a felicidade. Se eu ainda estiver vivo até lá, quero chegar em 2025 usufruindo geral. Segundo o Facebook, eu vou morar em Alpha Centauro.”

Erika_40cm
Erika Palomino, 47, jornalista.
[1995] Escrevia a coluna Noite Ilustrada e o roteiro Dance na Folha de S. Paulo. Vivia intensamente a noite paulistana, adorava beber kir com champanhe e tinha a Madonna como sex symbol.
[2005] A moda tomou conta do trabalho e a coluna na Folha passou a falar de música, arquitetura e arte, além, claro, do mundo fashion. Em 2000, virou empresária e ganhou autonomia ao lançar o site. As noites em claro transformaram-se em coisa rara. “Acordo às 7h30 durante a semana, corro, faço ginástica e tenho uma rotina intensa de trabalho.” E a Madonna? “Perdi a paciência com ela. Fechei um ciclo. Nos próximos anos quero consolidar minha empresa de comunicação e estou começando um trabalho em televisão. Espero que até lá tudo tenha dado certo.”
[2015] Essa última década foi de autoconhecimento e desapego. “Há pouco comecei a fazer meditação, ganhei minha vida de volta e sou mais dona do meu tempo, apesar de manter a intensa rotina de trabalho e de minha insônia ter piorado muito. Não faço só o que quero, mas não faço o que não quero. Descobri que ser empresária é uma grande chatice, e hoje sou minha chefe e minha funcionária. Estou tentando aprender a viver o presente, com uma atitude mais positiva desde a hora em que acordo. Tirei minhas primeiras férias da década, viajei por 4 continentes, continuo adorando fazer televisão e projetos que me desafiam, com gente legal, divertida e honesta. Em 2025 quero estar fazendo documentários, editando livros, possivelmente na Europa, junto da minha família e dos meus cachorros. Quero também virar a maluca da ioga, da alimentação saudável e da natureza.”

Elkis_40cm
Gilberto Elkis, 56, paisagista.
[1995] Tinha um escritório de paisagismo na Vila Madalena, andava de moto e frequentava o Superbacana e outros bares da região e viajava pelo mundo.
[2005] Dez anos continuava viajando e já era um dos paisagistas mais disputados do país.
[2015] Enraizou de vez na Vila Madalena, coleciona motocicletas e projeta jardins no Brasil e exterior. Abriu um “clubinho” para receber os amigos no almoço. 2025? “Quero estar com saúde em dia e torço para um planeta mais verde e sustentável.”

Marcicano_40cm
Alberto Marsicano, músico.
[1995] Fazia apresentações no Masp, Teatro Cultura Artística e, às vezes, no restaurante Govinda. Só se vestia de branco.
[2005] Tocava em raves. Gravou 5 CDs, um deles lançado na Rússia. Nada mudou em 10 anos e, provavelmente, não vai mudar nunca, segundo Marsicano.
“Em 2015? Vou estar tocando cítara. Isso não muda.”
Obs.: Marsicano faleceu em 18 de agosto de 2013.

Renato_Geane_40cm
Renato de Cara, 51, galerista e fotógrafo, e Geanine Marques, 42, cantora.
[1995] Tinham acabado de se casar, estavam em uma casa nova e arrumada.
[2005] Acabaram de terminar o casamento. O cachorro ficou com ele. “A gente estava aprendendo a ser um casal, agora estamos aprendendo a ser amigos”, diz Geanine.
Daqui a 10 anos os dois querem estar tranquilos, fazendo o que gostam, na praia ou na montanha.
[2015] “A praia e a montanha ainda não me pertencem, mas foram 10 anos fazendo o que eu amo. Em 2008, aconteceu o Stop Play Moon, 2 álbuns lançados e um projeto que continua a me trazer alegrias e realização. Em 2025? Sobre os próximos 10 anos? Nossa, estou supercuriosa!” [Geanine]
“Na última década eu plantei e prospectei os frutos que começo a colher agora. Os planos são crescer no meu negócio e me estabelecer definitivamente depois de ter vivido uma adolescência estendida.” [Renato]

Leao_40cm
Leão Serva, 55, jornalista.
[1995] Era diretor executivo do Jornal da Tarde, fazia mestrado sobre a linguagem da guerra e dirigia um Karmann Ghia 66.
[2005] Comandava a assessoria de imprensa da Prefeitura de São Paulo, vendeu o Karmann Ghia para um colecionador e dirigia uma Zafira. Fazia um MBA em Negócios. O culto a coisas antigas voltou-se às câmeras fotográficas. “Tenho uma Leica antiga e uma SX70”. “Daqui a 10 anos acho que vou estar fazendo livros. Já lancei três, mas, se pudesse, teria escrito mais.”
[2015] O sonho se realizou: desde 2011 dedica-se à carreira de escritor. Entre outros livros, escreveu Como Viver em São Paulo Sem Carro (com Alexandre Frankel). Vendeu seu automóvel e prefere transportes públicos. Escreveu também O Tipógrafo na Colônia, biografia do fundador da primeira revista do Brasil (em 1812), seu tataravô Manuel da Silva Serva.
Em 2025 sonha em ter netos. Adoraria dedicar-se mais à fotografia, hoje apenas um hobby.

Sonia_40cm.
Sônia Ushiyama, 54, arquiteta e figurinista.
[1995] Era estilista e dona do brechó Universo em Desfile.
[2005] Fazia figurino para teatro. A Universo em Desfile foi fechada em 1996. Praticava kendo, tocava tambor japonês e estudava caligrafia japonesa. “Me voltei para a cultura japonesa. É uma arte que busca o autodescobrimento.” Até 2015 pretende visitar o Japão e dar uma volta pelo Oriente. “Meu sonho é ficar de bem comigo mesma.”
[2025] Nos próximos 10 anos? “Quero saúde, amor, aprender e conhecer coisas novas, continuar evoluindo.

BigRichard_40cm
Big Richard, 42, professor, militante da cultura hip hop, Kaiodê, 20, Kazendê, 17.
[1995] Era militante do movimento negro, rapper e fabricava fraldas em casa para sobreviver. Tinha acabado de se casar e ter um filho.
[2005] Estava lançando uma marca de roupas, a Big Richard, e era dono da DuBig, produtora de audiovisual. Participou da novela Turma do Gueto e lançou o quarto CD. “Era considerado um moleque do movimento negro. Hoje tenho um público que acredita em mim. Tenho os mesmos ideais, mas sou menos radical. Atuo na Central Única da Favela, Ong de hip hop que prepara jovens para trabalhar com audiovisual.”
[2015] “Em 10 anos o meu filho vai estar com 20 anos. Tomara que não invente de ser pai cedo, como eu. Espero ver a molecada pegar a direção do movimento hip hop.”
A última década funcionou, foi preciso fazer algumas correções de rota, pois a estrada da vida não é uma linha reta.
“Hoje, chegando aos 42, sobrevivi às periferias paulistanas, ultrapassei a expectativa de vida de um jovem negro periférico, me graduei em Ciências Sociais, fiz especialização em História e Cultura no Brasil, mestrado em Comunicação e neste ano comecei o doutorado em Ciências Sociais na Universidade de Brasília [UNB]. Considerando todos os índices de exclusão associados ao jovem negro e pobre como eu, tenho feito uma boa caminhada e tenho visto meus filhos caminharem bem também. Sou um militante da cultura hip hop, mas não sou mais um rapper. Isso ficou na história. Porém, ainda hoje, é através do hip hop que identifico meu lugar de fala. O hip hop é parte fundamental da minha identidade, assim como as construções do movimento negro.”


Exposição: Projeto DECANOS | 1995 – 2005 – 2015
Fotos: Armando Prado
Texto: Fernando Costa Netto
Produção: Mônica Maia
Assistente de foto: Henrique Torricone
Make up: Camila Terasin
Tratamento de imagens, impressão e montagem da obra: Marcos Ribeiro
Montagem da exposição: espaço opHicina

Galeria NIKON
De 23 de abril à 3 de junho
Rua Aspicuelta, 153, Vila Madalena, SP

De segunda a sexta das 10h às 19h e sábados e feriados das 11h às 17h
galeria@nikon.com.br
11 2592-7922

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